Fome e Sede
Por Carlos de Paula

Enquanto a vida canta forte em nosso peito é natural corrermos em busca de todas nossas vontades. Mesmo aquelas que outros nos digam ser impossíveis, para nós não são! Pois, a vitalidade afasta toda descrença em nossas procuras. Nessa fase, mesmo passando por dificuldades, é tranquilo sorrir para a vida, dirigir um carro, festejar por qualquer motivo, entregar-se às muitas aventuras e, ao final de tudo, sentir-se dono e autossuficiente de nossa própria vida.

Realmente, tudo parece alcançável! Mas por que ainda sentimos fome e sede? Ainda que alimentos não nos faltam, e que possamos experimentá-los em várias ocasiões, sejam em nossa casa ou nas mais diversas comemorações que movimentam nosso dia a dia. Mesmo assim, a fome e a sede estão lá, dentro de nós em algum lugar que não conseguimos identificar. Por mais que corramos e alcancemos algo, ainda queremos mais. E por que sempre queremos mais? Talvez porque tudo nos canse muito rápido!

Em sincronia com a velocidade de nossos dias, buscamos galgar uma posição de destaque na empresa em que trabalhamos, melhorar nossa formação profissional, talvez nos tornarmos bem sucedidos empreendedores ou quem sabe até mesmo uma personalidade famosa por meio da arte, do esporte ou da política. Inconscientemente, o que fazemos é buscar recursos que nos dêem acesso a todo tipo prazer. De uma forma ou de outra, o fato é que todas essas coisas são apenas soluções paliativas para nossa fome e sede interior.

Algumas vezes, supervalorizamos uma amizade esperando encontrar nela algo que preencha nossa carência. Tudo ilusão! As pessoas falham. Não quero aqui minimizar o valor de uma genuína amizade, ao contrário, saber conservar uma amizade é uma dádiva de preço incalculável; ter um ombro amigo nas horas difíceis é como encontrar um refúgio seguro em meio a uma tempestade. No entanto, nenhuma amizade, por mais fortificada que seja, pode nos conhecer interiormente.

Outras vezes nos entregamos às paixões vivendo perigosamente. Nesse ínterim, ouvir alguém dizer “Eu te amo” é bastante comum e banal. Para estes, a palavra amor já não tem significado, ela serve apenas para, momentaneamente, satisfazer uma carência, ou pior: às vezes, ela é usada com o intuito de se alcançar satisfação de desejos e, até mesmo, como subterfúgio para amenizar a solidão. Ao final de tudo ainda estamos vazios, com fome e sede e, algumas vezes, com repúdio de nossas próprias ações.

Então, por que não conseguimos satisfazer nossa fome e sede? A resposta é simples! Porque temos fome e sede da eternidade! O fato é que tudo que possuímos ou almejamos é perecível! Tudo o que é terreno acaba ou morre com o tempo. Os sonhos de nossa juventude se desfalecem com os sinais do tempo em nosso rosto; a comida farta se torna indigesta; nossos prodígios são esquecidos e tudo que construímos tornam-se objetos de disputa por herança. Nada dura para sempre! Talvez por essa razão nos entreguemos, em muitos instantes, a eufórica alegria, como se pudéssemos eternizar cada um desses momentos. Mas o fato é que os dias não nos esperam e cada instante vivido nos faz aproximar de uma decisão definitiva que teremos que tomar, quer esperemos por ela ou não.

Um sábio judeu, provavelmente posterior aos dias de Salomão, certa vez escreveu: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer” (Eclesiastes 12:1). Nossa primeira chance é buscarmos o Criador enquanto a vida canta forte em nosso peito. Nossa segunda chance é aproveitar nossa experiência de vida, dar ouvidos à voz interior que clama por sabedoria. Sentindo essas coisas o Rei Davi pediu a Deus que fizesse com que saibamos como são poucos os dias da nossa vida para que tenhamos um coração sábio (Salmos 90:12).

É isso! Precisamos da sabedoria Dele. Precisamos sabê-lo mais. Se fomos criados à Sua imagem e semelhança, então conhecê-lo é nos conhecer. Quando nos aproximamos Dele, nós nos resolvemos. O próprio Deus nos fez conhecê-lo na figura de Seu filho, Jesus. Quando questionado a respeito de Seu Pai, Jesus respondeu: “se conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai” (João 8:19).

A questão agora é conhecer o Filho. Afinal, o próprio Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6) Definitivamente, não há outro nome que nos leve ao Pai.

O apóstolo Paulo, ao escrever aos Efésios, advertiu-os a conhecer o amor de Cristo. Amor que excede todo entendimento, para que fossem tomados de toda a plenitude de Deus (Efésios 3:19). Conhecer a Cristo significa conhecer a verdade, a vida e o Amor que é o próprio Deus.

Enquanto ensinava seus discípulos, Jesus também disse: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente” (João 6:51). Em outra oportunidade, Ele disse à mulher samaritana: “aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (João 4:14).

Percebam que Jesus é o nosso verdadeiro alimento, Ele é a solução para nossa fome e sede interior. Ele é a expressão máxima do Amor e o único nome pelo qual chegamos ao conhecimento do Pai e a salvação eterna!